Distúrbios da linguagem oral: quanto mais cedo identificar, melhor!

Distúrbios da linguagem oral: quanto mais cedo identificar, melhor!

As habilidades e competências da comunicação oral estão na base de todo o processo de aprendizagem das crianças, pois é através dela que nos relacionamos com nosso próximo, relatando experiências, ideias, conhecimentos e sentimentos.

A aquisição de linguagem envolve fatores biológico, afetivo e social que se inter-relacionam estabelecendo gradativamente esse complexo aprendizado.

Os distúrbios de comunicação oral em crianças são muito frequentes afetando de 5 a 10% de todas as crianças e se não tratados podem ter como consequência um forte impacto na vida social e escolar.

Quanto mais cedo melhor

Reconhecer precocemente qualquer problema do desenvolvimento infantil é fundamental e pode fazer muita diferença.

Em relação a crianças com alterações na aquisição e desenvolvimento de linguagem, a identificação precoce, o diagnóstico bem feito e a intervenção imediata podem fazer a diferença entre uma comunicação e socialização boa ou deficiente ou mesmo entre o fracasso e o sucesso escolar.

Quanto mais cedo for feita a detecção e intervenção, melhor será o prognóstico: segundo a neurociência, o desenvolvimento cerebral é muito grande nos primeiros anos de vida da criança e a estimulação será mais absorvida com a possibilidade de novos caminhos, pela neuroplasticidade.

É preciso estar atento

A família e os cuidadores geralmente são atentos para observar alterações, mas sabemos que os “pais de primeira viagem” que não têm experiência com crianças, podem achar que não há problema em esperar. As opiniões e “palpites” de parentes e pessoas leigas também costumam atrapalhar, e então contaremos com a ajuda do pediatra que vê a criança com frequência e acompanha seu desenvolvimento e dos professores da educação infantil, dos berçários e creches, que com seu conhecimento sobre o desenvolvimento normal, poderão orientar e encaminhar os pais para que procurem ajuda dos especialistas para avaliações mais específicas e aprofundadas.

Não se deve negligenciar quando se observa alguma alteração na aquisição e desenvolvimento da linguagem, pois isso pode significar algo simples como uma alteração articulatória, ou mais grave como parte de um atraso global decorrente de alterações auditivas, neurológicas, cognitivas e até psicológicas.

Mas então o que é esperado no desenvolvimento normal da linguagem das crianças, para que se possam reconhecer as alterações? O que é esperado em cada fase?

Jaime Zorzi e Simone Vasconcellos Hage em seu livro PROC (Protocolo de Observação Comportamental: avaliação de linguagem e aspectos cognitivos infantis), propõem a seguinte tabela:

0-3 meses: inicialmente o bebê chora como reação biológica à dor e à fome, esse choro se torna diferenciado e pode-se perceber se a criança tem fome, sono ou dor. Presta atenção aos sons, se acalma com a voz da mãe, observa o rosto, sorri como resposta à estimulação.

4-6 meses: procura a fonte sonora, grita e emite sons. Olha quando é chamado. O balbucio é indiferenciado, repetindo a mesma sílaba:  papapa/mamama.

7-9 meses: participa com mais interação com seus cuidadores, o balbucio é diferenciado, repetindo sílabas diferentes: padada/dadapama.

10-11 meses: surgem os comportamentos comunicativos intencionais com gestos e vocalizações para obter algo, repete sons, bate palmas, aponta, faz tchauzinho, não e joga beijo. Participa da atividade dialógica por meio de jargão: encadeamento de vogais e consoantes variadas com entonação da língua materna.

12 meses: imita as primeiras palavras, imita a ação dos outros, produz onomatopeias (au-au, piu-piu, miau, brum).

18 meses: pede o que quer, fala mais ou menos 20 palavras e compreende umas 50.

2 anos: faz frases curtas com duas a três palavras, já possui um repertório de 200 palavras, mantem um diálogo por meio de especularidade (Onde você foi? Quem estava lá?) e complementação ( o gatinho faz....) estimulado pelo adulto. Compreende perguntas, imperativos e afirmações rotineiras.

3 anos: se faz entender, pode errar o verbo ou trocar alguns fonemas da fala. Conhece cores, às vezes letras e números. Ocorre um aumento considerável no repertório de compreensão da linguagem.

4 anos: inventa histórias, compreende regras de jogos simples, usa 90% dos conceitos gramaticais corretamente. Já relata experiências imediatas. Diminuem as trocas.

5 anos: faz frases completas, fala corretamente, tem um repertório de até 3000 palavras. Narra uma história conhecida sem ajuda do outro ou de figuras. Já conversa sobre elementos ausentes, que ocorreram no passado, por exemplo.

6 anos:  tem um repertório em torno de 6000 palavras. Descreve objetos, demonstra habilidades metalinguísticas como definir palavras, identificar sílabas e fazer rimas. Muitas habilidades conversacionais, conversando com  mais de um interlocutor ao mesmo tempo sobre vários assuntos.

7 anos: faz a reprodução correta da fala. Utiliza todas as funções comunicativas, conseguindo argumentar e persuadir. Boas narrativas reais são inventadas; a criança regula o que quer dizer em qualquer lugar e com qualquer pessoa.

Claro que há pequenas variações que podem ser observadas no desenvolvimento das crianças, pois o meio ambiente pode também interferir positivamente, quando há estimulação rica e motivadora ou negativamente, quando a criança é deixada sozinha, na frente de uma televisão, por exemplo. 

Porém se a sua criança, seu aluno está muito fora dessa tabela de aquisição, deve ser imediatamente encaminhada para a avaliação fonoaudiológica. O fonoaudiólogo fará a avaliação de linguagem e solicitará, se necessário, outras avaliações pertinentes a cada caso.

Prevenção

Como prevenção já temos felizmente o Teste da Orelhinha, triagem de acuidade auditiva do recém-nascido, obrigatória nas maternidades do Brasil.

Outra consideração importante quanto à detecção de alterações de linguagem, diz respeito às avaliações de linguagem realizadas na pré-escola. Esses rastreamentos são feitos anualmente durante toda a educação infantil pelo fonoaudiólogo escolar (quando ele faz parte da equipe da escola, ou é contratado pontualmente).

Com esses cuidados as alterações serão percebidas, os encaminhamentos  realizados e as intervenções efetivadas em tempo de sanar ou minimizar problemas futuros na socialização, na autoestima e na aprendizagem da leitura e escrita onde a aquisição da linguagem oral é pré-requisito.

Diz o sábio ditado popular que “Prevenir é sempre melhor que remediar”. 


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Selma Maria Domingues El Hage
Fonoaudióloga – Crfa 2 - 4019 - Especialista em Motricidade Orofacial - Aprimoramento em Neurociências e Aprendizagem - Aprimoramento em Dislexia e Distúrbios de Aprendizagem - Instrutora do Conceito de Reabilitação Corporal e Orofacial Castillo Morales

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